sábado, fevereiro 09, 2013

Irmandade Feminina: nem sempre é como deve ser




há uma crença utópica de que toda mulher voltada ao Sagrado Feminino é isenta de diversos males que acometem a outras mulheres, mulheres que são do 'patriarcal'...
não há essa demarcação emocional. lamentavelmente somos todas as mesmas. feitas da mesma matéria espiritual e mental que todas as fêmeas de antes, de agora e do depois.

temos algumas, certas vivências que extasiam, que tornam vívida uma realidade que passa batido para outras, as que não se viram nunca numa roda de mulheres, num círculo feminino, numa irmandade feminina. isso sim causa impacto, faz certa diferença. afinal experimentar essas realidades torna o  mundo mais sensorial para nós, transmuta conceitos, abre portais internos e subterrâneos que sempre estiveram em nós e não percebíamos.

quiçá a palavra que melhor traduz o que acontece a cada mulher do Sagrado Feminino seja "percepção", é a percepção a que pauta o tudo que passamos a encarar com olhos outros, prismas outros, ao concreto, ao etérico, ao mundano, ao espiritual, quando engajadas nessas Artes.

mas o construto humano é o mesmo, ocorrem atos de limar as asperezas, aquelas asperezas de caráter, que nós mostram ambíguas várias vezes, pois ao vivenciar toda essa miríade de dinâmicas femininas, aonde a pauta é o encontro, a fala circular, de igual para igual, é quase impossível não apreender toda essa energia, e tentar internalizá-la, mas elas são, estão e se manifestam no instante em que passamos a encarar [mesmo alguém irmanado, de irmandade] como um alguém que não atende às nossas expectativas. 

e são as expectativas as que colocam a nós, as mulheres 'do feminino sacro' de igual para igual com qualquer outra, de qualquer credo ou não credo, no que tange à gana e vaidade em ser a mais 'centrada', a mais leal, a mais consciente, a  mais amiga, a melhor aquilo ou acolá...
não é o credo, a fé, o determinante da retidão de alma alguma quando se trata de expectativas.

e as expectativas per se são individuais, o coletivo nada exerce ali. 
e no ensejo de ver atendidas todas essas expectativas vamos encarando paulatinamente, quiçá de forma quase invisível ou explícita, a todas as nossas irmãs, como rivais, grandes ou pequenas rivais. mas em suma e essência rivais.

rivais em coisas simples, como ser a primeira a perceber x coisa, ou em ser aquela que menos desavenças elenca em suas costas e no passado, ou rivalidade quanto a captar a atenção mais do que as outras, a 'realizar' um contato/rito/celebração mais palpável que as demais com suas deidades...

somos todas passíveis de manifestar a 'não-irmandade' a qualquer momento, porque somos humanas, e não é o nosso credo, nossas práticas mágicas, ritualísticas, femininas, as que nós tornam impermeáveis aos males humanos, da vaidade, da inveja, da fofoca... Esta última então vai para o topo da lista, pois é um veneno letal, que escamoteia verdades, distorce formas, separa pessoas, e assim se faz por um motivo único: ela vícia...

fofocas viciam, silenciosamente, como um câncer sem cura, tomam a pessoa no momento menos pensado e passam a habitá-la e torná-la um mero receptáculo.

mas isso é apenas um mal feminino? não é. 
o problema radica na visibilidade, nós mulheres somos externas, bradamos gritos de vitórias e também com a mesma intensidade de dores, de reprovação, de decepção. 
o homem por razões seculares e que sei já foram bem dissecadas por 'n' sociólogos ou antropólogos, são intro, vão por dentro, mas também apreciam ouvir uma 'novidade' e mais ainda se  a novidade é negra sobre outro alguém. faz parte da nossa humanidade. e nisso também o gênero, assim como o credo, não vai servir a alma alguma de escudo isolante.

somos seres egoístas, uns menos do que outros, e isso também ultrapassa qualquer segmento, é para todos. 
assim tecer falas sobre o outro, e com qual índice de maldade o faremos, é determinado pelo grau de egoísmo que temos em nós. em tese egoísmo deveria ser termo banido e diluído se falamos de irmandade. mas assim não é na realidade.

mas quem me lê deve dizer, está ela a emitir um belo sermão sobre o que os outros fazem de mal ou não quanto a outros? não. eu me insiro nas expectativas, nas percepções, na feitura de fofoca, no confronto com outras.
sou humana.

e sei que para engavetar todos os conceitos do Sagrado Feminino, seu escopo, sua essência, basta uma fala torta, uma indireta, uma porta semifechada, para que tudo aconteça.

no entanto o tudo não está perdido. irmãs nem sempre de sangue, secam nossas lágrimas, escutam nosso suspiros, nossos gritos, ou silêncios. 
e ainda bem que também podemos, graças a essa nossa humanidade, construir irmandades, limar asperezas, aceitar o imutável, seguir em frente, reconhecer aonde erramos, sentir saudade de quem por expectativas, egos, falas ferinas bilaterais, perdemos, e pegar tudo isso e tecer com um novo novelo um caminho com o que erramos e acertamos.
por que somos humanas.

aos nosso olhos, sob a nossa  percepção não somos aquelas que mentem, que escondem verdades, que moldam realidades, que traem, que desleais agem, nunca, aos nossos olhos não há isso, em nós, para nossos olhos o evidente sempre é o erro alheio. por que somos humanas. e pensamos a nós mesmas sempre melhores do que somos.

irmandades só funcionam, sejam círculos, duplas, grupos imensos de mulheres, relações de irmã familiares, se em algum instante de qualquer dia, a qualquer hora, cada uma de nós assuma qualquer índice de maldade, que todos carregamos dentro de nós.

Luciana Onofre



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